Geo Soluções recebe Phil McGoldrick e fala sobre tendências no uso de geossintéticos na Mineração

Da Geo Soluções – Phil McGoldrick, diretor técnico internacional da Strata, desenvolve projetos na Europa, Oriente Médio, África e Ásia e tem por missão combinar forças e esforços dos engenheiros do grupo em todos os países para o desenvolvimento de novos sistemas e metodologias de projeto. Com quase trinta anos de atuação na área de geossintéticos, o engenheiro irlandês visitou o Brasil em março e falou com exclusividade ao portal Geosynthetica.net.br sobre a aplicação de geossintéticos na área de mineração, tendências e cenário globais para os geossintéticos. Confira a íntegra desta entrevista:

José Orlando Avesani Neto, da Geo Soluções, e Phil McGoldrick

José Orlando Avesani Neto, da Geo Soluções, e Phil McGoldrick

Qual é o objetivo desta sua visita?
O objetivo dessa visita, obviamente, era nos reunir novamente com a equipe brasileira para falar sobre nossa paixão, os geossintéticos, e fomos convidados por uma grande empresa de mineração para visitar o local de um projeto e analisar seus problemas geotécnicos. Passamos dois dias lá, eu e Victor Pimentel, CEO da Geo Soluções, e no final caminhamos para fornecer alguns projetos geotécnicos usando nossos geossintéticos.

Como você avalia o uso de geossintéticos no campo de mineração brasileiro?
Eu acho que no Brasil, particularmente, este uso ainda está em fase inicial. Há uma história anterior de uso extensivo de geomembranas em mineração no Brasil, Peru e em outros países da América do Sul, mas o uso de outros geossintéticos como geogrelhas e geocélulas ainda está em fase embrionária. Quando discutimos com os clientes eles dizem “Uau!”, eles veem as vantagens dos geossintéticos. Então, o motivo da minha visita ao Brasil é oferecer aqui nossa experiência em projetos de mineração na Índia, Turquia, Nova Zelândia, Austrália. Lá, nossas geogrelhas e geocélulas estão realmente sendo levadas em conta e recebidas como ótimas soluções, por isso estamos trabalhando com a equipe aqui no Brasil para trazer estas soluções para o mercado brasileiro de mineração. Os clientes brasileiros conhecem geossintéticos, mas, em comparação com a Europa, tenho a impressão de que estão cerca de 15 anos atrasados. Acho que o Brasil está focado agora em seus problemas políticos e daqui a um ou dois anos veremos o Brasil voltando muito forte, especialmente no setor de mineração.

Quais são as tendências internacionais para os geossintéticos na mineração?
Neste momento, por exemplo, estou trabalhando em um projeto na África em que o cliente está expandindo a área de mineração, e para isso devem construir grandes estradas de acesso. Ocorre que o terreno é um pântano, então estamos oferecendo um projeto para construir esta longa e nova estrada de acesso através do pântano. Noto que clientes de mineração em todo o mundo estão olhando os geossintéticos e dizendo “ok, vocês têm uma solução”. Nos locais de mineração eles perguntam “posso usar esse solo”? É um solo residual? Sim, podemos tentar usá-lo. Eles estão muito mais abertos a novas técnicas, não são órgãos governamentais, são desenvolvedores de projetos, mais focados em aumentar o bom desempenho da obra, são guiados por encontrar soluções eficientes. A questão é a seguinte: nós temos um problema no solo, podemos usá-lo? Então, eu acho que os geossintéticos estão se tornando globalmente bem-sucedidos por possibilitar a reutilização sustentável dos solos. Ao invés de ir à pedreira e fazer o desmonte de rochas para obter uma rocha granular agregada, podemos usar resíduos. Não é um ótimo material, mas podemos usá-lo, e isso é muito significativo para o setor de mineração. No entanto, é preciso entender muito bem como geossintéticos e resíduos trabalham juntos. Em suma, na mineração eles estão muito mais abertos à inovação.

Quais aplicações para geossintéticos você vê que poderiam ser usadas na mineração brasileira?
Controle de erosão, taludes íngremes, revestimento de canal, como nos projetos que têm sido desenvolvidos pela Geo Soluções, com geocélulas para escoamento. Também nas barragens de rejeitos, onde ao invés de usar métodos tradicionais usamos técnicas de solo reforçado para reduzir as pegadas ecológicas do projeto e ampliar a capacidade das barragens de forma que possam armazenar mais resíduos. Assim, a mineração, tanto globalmente quanto no Brasil em particular, é perfeita para o uso de geossintéticos.

Você viaja muito e tem visto muitos congressos e conhecido novas técnicas. O que mais o impressionou em relação ao uso de geossintéticos?
Veja, estamos construindo uma nova fábrica em Bombaim, na Índia, que aumentará drasticamente nossa capacidade, e um dos motivos para isso é nossa percepção da ampliação do uso de geocélulas. No passado, as geocélulas eram usadas principalmente para o controle da erosão, e agora vemos um grande aumento no seu uso para a estabilização do solo. Na Índia, por exemplo, temos projetos muito grandes em pátios de contêineres, um sistema que está sendo usado com mais regularidade. Para este sistema devem ser considerados inúmeros detalhes de projeto, e temos trabalhando muito próximos ao engenheiro Avesani Neto, diretor técnico da Geo Soluções que realizou estudos detalhados para o seu doutorado sobre este assunto, desenvolvendo metodologias detalhadas de projeto para esta aplicação. Na área de geogrelhas eu não acho que tem havido uma inovação massiva, as empresas estão aumentando a resistência à tração usando diferentes polímeros, como PVAs, que podem ser bons na aplicação correta. Vejo mais inovação nas aplicações e sistemas do que nos produtos. Em nossa nova fábrica teremos vários tipos de geogrelhas, talvez até com diferentes polímeros, mas uma das inovações mais recentes, de que eu gostei, é o Concrete Canvas. Eles têm aquela manta de concreto, combinando geotêxteis com cimento, à qual se adiciona água para obter uma estrutura rígida, eu gosto dessa inovação, mas não estou bem certo de que seja um geossintético.

Olhando para as últimas décadas, quais são as principais conquistas dos geossintéticos?
Para mim, a principal conquista dos geossintéticos é sua aceitação. Vinte anos atrás, por exemplo, na Europa não havia padrões internacionais para o uso de geossintéticos em projetos de solos reforçados. Mas com a introdução de normas, como as britânicas, desenvolvidas nos anos noventa, os geossintéticos se consolidaram como uma ciência. Você pode projetar geossintéticos como concreto, pode projetar como o aço, porque há normas embasando isso. Para mim, a aceitação do uso de material plástico para reforçar o solo foi a principal diferença nos últimos vinte anos. Agora, com as normas, podemos usá-los com muito mais conforto, podemos ir aos clientes com mais confiança e mostrar a eles que temos um código de projeto e que a aceitação deles tem sido fantástica. No entanto, as normas de projeto para solo reforçado são baseadas no uso de materiais granulares de boa qualidade. O ponto fraco é que, seguindo estas normas, não podemos usar argilas ou solos vermelhos residuais como os que se encontra muito no Brasil, e por isso não podemos usar este tipo de solo em projetos de obras governamentais. Gostamos de usar geossintéticos para oferecer aos clientes e construtores em geral soluções de engenharia com alto valor agregado, mas algumas soluções são limitadas pela regulamentação. Como engenheiro, quero oferecer ao meu cliente as soluções mais econômicas e, às vezes, normas e regulamentações podem impedir que isso aconteça. Então, tenho discutido esse tema com consultores, pois quando um consultor está projetando, ele deve cuidar não só da segurança da obra, mas também deve se proteger enquanto profissional. Como engenheiro, ele poderia pensar “Uau! Geossintético é uma boa solução econômica! Mas não podemos adotá-lo, porque não está nas normas”. Na Europa, agora há um grande esforço para desenvolver normas de projeto que definam a reutilização sustentável do solo. Tenho notado que os órgãos governamentais ligados à infraestrutura rodoferroviária estão começando a procurar geossintéticos para melhorar o desempenho das obras a longo prazo. Na Índia há muitas ferrovias novas sendo construídas, e não há rochas, então lá eles estão realmente se debruçando sobre soluções com geossintéticos.

Pode nos falar um pouco sobre essa nova fábrica que a Strata está construindo?
Temos uma fábrica nos EUA e outra na Índia, e a Strata, como uma empresa global, está crescendo. Para crescer e se desenvolver ainda mais, precisamos de mais capacidade. Estas novas instalações nos darão um enorme aumento em nossa capacidade, e teremos produtos com maior resistência. As operações da nova fábrica se basearão principalmente em geogrelhas e geocélulas. Como negócio, estamos crescendo na Índia, Nova Zelândia, Ásia, América do Sul, Oriente Médio. Eu costumava ver a Strata como uma “empresa boutique” e agora vamos ser uma grande empresa boutique. As novas instalações nos darão produtos maiores também. A Strata estava principalmente focada em muros e taludes de solo reforçado, mas agora temos usado muito nossas geogrelhas em estabilização de solo, e os clientes pedem por bobinas maiores, o que permite mais cobertura e uma instalação mais rápida, então estudamos esse assunto e decidimos desenvolver isso. Nossas geogrelhas serão mais largas do que as de qualquer outro fabricante. Inicialmente, vamos dobrar a capacidade, mas vamos procurar expandir mais no futuro. Estamos trabalhando também no desenvolvimento de aplicações e novos sistemas.

Parece que os detalhes de projeto e o desenvolvimento de sistemas estão em foco agora, enquanto há alguns anos os fabricantes estavam mais focados no desenvolvimento de novos produtos. Como você vê isso?
Veja, na construção desta nova fábrica usamos geocélulas para estabilização do solo, que era o uso inicial deste material, projetado pela US Army Corp para construir estradas de acesso. Ao longo dos anos têm sido utilizados outros métodos, como com a aplicação de geogrelhas biaxiais para estabilização, mas descobrimos mais recentemente que usar nossas geocélulas é uma ótima opção para melhorar a capacidade de carga de solos que recebem cargas muito altas, por exemplo, em locais de mineração, que usam enormes caminhões. Há muitos detalhes de projeto que devem ser observados e percebemos que o uso de geocélulas oferece ao cliente uma solução viável e econômica. Para a pavimentação de estradas a geocélula também é muito eficaz. Já sabemos que o uso de geogrelhas permite reduzir a espessura do pavimento, mas fizemos muitos estudos nos últimos anos e descobrimos que o uso de geocélulas realmente diminui essa espessura, então pode-se usar menos material e ao mesmo tempo melhorar a durabilidade a longo prazo destas vias. Percebemos também que em locais de mineração as estradas não podem ser fechadas, e é vital reduzir a necessidade de manutenção. Também temos usado geocélulas no reforço de fundações de edifícios industriais. Por exemplo, em nossa nova fábrica, há algumas áreas que reforçamos com StrataWeb. Mas, repito, há muitos detalhes importantes de projeto que precisam ser observados para ter sucesso nestas aplicações. Ainda não temos realmente normas de projeto internacionais para o uso de geocélulas na estabilização do solo. Acho que o trabalho que o Avesani Neto tem realizado nos últimos anos, fazendo testes de desempenho empíricos e desenvolvendo métodos de projeto, além dos muitos estudos que temos feito em conjunto com universidades, nos permitiram consolidar um conhecimento e desenvolver métodos nos quais todos podemos confiar, e esse é o desafio do mercado agora. Quando olho para o mercado global, o mundo parece um lugar pequeno. Em todos os lugares se verifica o uso de geossintéticos, a comunidade ligada a estes materiais é forte e os principais fabricantes também são uma grande família, vejo no futuro uma nova amalgamação entre todos. O segredo é ter seu core business e, como empresa, sempre inovar. Inove em produtos, se puder, e inove nas aplicações. Adoro inovações e adoro o Brasil com todos os seus solos vermelhos e geossintéticos que podem ser usados com ele. (com colaboração de Carolina Carvalho)

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